domingo, 5 de março de 2017

Padecendo sob a pós-verdade II

Dos muitos passos sublimes do Evangelho de João, a pergunta de Pilatos a Jesus, "O que é a verdade?", retoricamente, está entre os mais pungentes: com uma só frase, delineia-se todo um personagem, todo um povo e, profeticamente, todo o choque civilizacional dos séculos seguintes.

Ironicamente,  para alguns estudiosos do chamado "Jesus histórico", todo o passo concernente aos bastidores da prisão de Jesus seria invenção posterior dos evangelistas, uma vez que ninguém do círculo de Jesus poderia ter tido acesso ao mestre depois de sua prisão e, crucial, não haveria nenhum motivo para que houvesse qualquer tipo de processo antes de sua execução.

Quid est post-veritas?




Padecendo sob a pós-verdade

Da Boa Nova segundo João, 18, 37-38:

Pilatos lhe disse: "Então tu és rei?" Respondeu Jesus: "Tu o dizes: eu sou rei.
Para isso nasci
e para isto vim ao mundo:
para dar testemunho da verdade.
Quem é da verdade escuta minha voz".
Disse-lhe Pilatos: "O que é verdade?"

Chave dos Profetas

Hear the voice of the Bards,
Who Present, Past, & future see.

Primeiro vaticínio  A Boa Nova segundo Marcos, 6, 4:

Ninguém é profeta em sua terra.

Segundo vaticínio "Tiro ao Álvaro", de Álvaro de Campos:

Portugal é uma plutocracia financeira de espécie asinina. É, como todos os países modernos, excepto, talvez, a Itália, uma oligarquia de simuladores. Mas é uma oligarquia de simuladores provincianos, pouco industriados na própria histeria postiça. Ninguém já engana ninguém  o que é tristíssimo  na terra natal do Conto-do-Vigário. Não temos senão os vigaristas de praça como prova de qualquer sobrevivência das qualidades de intrujice da nação. Ora um país sem grandes intrujões é um país perdido, porque a civilização, em qualquer dos seus níveis, é essencialmente a organização da artificialidade, isto é, da intrujice.

Terceiro vaticínio "Malfadados Trópicos", de Chico Buarque:

Ai esta terra ainda vai cumprir seu ideal,
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal...





sexta-feira, 3 de março de 2017

Ainda sobre o intrujão do Álvaro

O Relativista me escreve perguntando o que significa "intrujão". Olho no Azevedo e ele me joga no campo semântico de "enganador":

Enganador
Substantivos
simulador, falsador, embaidor, embromador, trambiqueiro, negaceiro, negador, sotrancão, trampão, trampista, defraudador, fraudador, mofatrão, logrão, logrador, burlão, burlador, intrujão, farsante, presilheiro, especulador = coqueiro (pop.), dissimulador; impostor, hipócrita, eruditus artificio simulationis = hábil na arte de enganar, songa-monga, bigote, sofista, mistificador, estrategista, pisa-mansinho; maquiavelista, fariseu, bonzo (pop.), jesuíta, cavilador, socancra, chupista, tartufo, Jano, Janus anceps = Jano bifronte, farsante, comediante, embusteiro, urdimaças, urdimalas, serpente, brasilisco, anguis in herba, machatim, intrujão de presilha, tolineiro (pleb.), jacobeu, candongueiro, lobo vestido de ovelha, passador, sepulcro caiado; santinho do pau carunchoso, santinho do pau oco; silingórnio (burl.), pantomimeiro, sicofanta, lobo com pele de ovelha, unhas de gato e hábitos de beato, embusteiro, embaucador, embelecador, tanganhão, falsário, fabricador, patranheiro, aldravão, aldravona, mentiroso, amigo de Peniche, amigo urso, albardeiro, batateiro, paroleiro, parolador, contador de histórias, bandoleiro, almocreve de petas, petarola, peteiro, fabulista, invencioneiro, caramboleiro, pomadista, cara, peteiro, capadócio-echacorvos; perjuro, falsa testemunha, língua impura, improvisador, Cagliostro, Fernando Mendes Pinto, barão de Munchausen, impostor, tapeador, mosca morta, fingidor, sofista, galopim, politicão, politiqueiro, politiqueiro de aldeia, ator; aventureiro, explorador, maquiavelista, espia, dobre; charlatão, curandeiro, mata-sanos, saltimbanco, medicastro, prestímano, prestidigitador, escamoteador, mágico, pandilha, pandilheira, conjurado, cigano, aliciador, alicantineiro, velhaco; trapaceiro, trampolineiro, vigarista (ladrão); cabo eleitoral, cabalista.

Por mais exaustivo que pareça, o verbete carece de correções e acréscimos:

A lista de nomes próprios poderia incluir outros Fernandos, outros Barões, outros Santos.

Trampista é gralha, em lugar de Trumpista.

Jano Bifronte também, Jano por Jânio.

Ao lado de peteiro, faltam peemedebeiro e peessedebeiro.

Não cairia mal, ao lado de anguis in herba, psittacus in herba.

E onde é que foi parar o termo "vice" nessa lista?!






Rubaiyat Revisited (2016)

Vendo o tumulto inconsciente em que anda
A humanidade de uma a outra banda,
Não te nasce a vontade de dormir?
Não te cresce o desprezo de quem manda?


(tradução de Fernando Pessoa)

Summa Summarum

Uma profecia do Rubaiyat:


Reinam o bobo e o vil, e o quem calha
A sorte de reinar; que o acaso talha,
Mas a Justiça e a Verdade há-de chegar — 
Quando for tarde e já de nada valha.




(tradução do correspondente para assuntos políticos em Portugal, Fernando Pessoa)

Mutato nomine, de te fabula narratur

Uma pré-verdade de Álvaro de Campos sobre nós:


Portugal é uma plutocracia financeira de espécie asinina. É, como todos os países modernos, excepto, talvez, a Itália, uma oligarquia de simuladores. Mas é uma oligarquia de simuladores provincianos, pouco industriados na própria histeria postiça. Ninguém já engana ninguém  o que é tristíssimo  na terra natal do Conto-do-Vigário. Não temos senão os vigaristas de praça como prova de qualquer sobrevivência das qualidades de intrujice da nação. Ora um país sem grandes intrujões é um país perdido, porque a civilização, em qualquer dos seus níveis, é essencialmente a organização da artificialidade, isto é, da intrujice.



quinta-feira, 2 de março de 2017

Uma pré-verdade

A Oxford, como se sabe, anunciou outrora-agora, em 2016, post-truth como a palavra do ano. Na Alemanha, a Sociedade da Língua Alemã, analogamente, elegeu o termo post-faktisch. Uma tripla grosseria: primeiro, porque não esperaram o ano acabar para fazer a eleição; segundo, porque fazem uma oposição simplória entre verdade e mentira, esquecendo a zona cinzenta, domínio da política, chamada verossímil; e terceiro por considerar que se trata de novidade.

Poderia citar aqui os discursos todos de Cícero e dos antigos em geral para mostrar que há dois mil anos a construção da verdade, da mentira e do verossímil, de acordo com a necessidade, já era moeda corrente. Mas estaria incorrendo, talvez, no mesmo erro da Oxford e da SLA.

Não duvido que o modus cogitandi já venha da época em que o Homo Erectus se levantou, e fico me perguntando se o Neanderthalensis aceitou bem a versão dos fatos dada pelo Sapiens, pouco antes de bater as solas.


quarta-feira, 1 de março de 2017

Filiação

No Livro do Desassossego, um post escrito por esses dias:

A leitura dos jornais, sempre penosa do ponto de ver estético, é-o frequentemente também do moral, ainda para quem tenha poucas preocupações morais. 

E naquela época não havia redes antissociais, chilreios, diários de rede....